Alienação

Qual é o problema da pós-modernidade?


Texto de Felipe Taufer - Bacharelando em Administração pela Universidade de Caxias do Sul (UCS).


Pintura de René Magritte (1929)


Não é algo tão simples, mas também não é algo resolvido através da complexidade racional da tecnoburocracia - embora o conhecimento técnico seja uma das possíveis alternativas para perceber-se fora de si, isto é, como objeto. Trata-se de um fenômeno, ao que parece, postulado por duas características centrais da complexidade do sujeito moderno:

1. Dissonância cognitiva, ao que parece, pelo menos, para a visão estrutural do mundo;

2. A transformação do fenômeno em espetáculo, ou seja, a fetichização da mercadoria como postulado central para qualquer fenômeno que possa surgir.

A teoria, como podemos chamar aqui, é a observação sobre o objeto material da realidade, ou como muitos preferem chamar sobre a ação; sobre "a prática". Trata-se de uma gnose a posteriori de alguma ação que pertence à realidade. Não é especificada à teoria uma função de fornecer conhecimento aplicável senão quando trata-se de um conhecimento técnico. O advento da modernidade caracterizou-se como uma revolução, pois antes de mais nada, mudou a forma do sujeito (ocidental) pensar, desta maneira, culminando na alteração das estruturas de formação e reprodução da sociedade. Através da racionalidade postulada praticamente como uma religião laica, surgem, então, a sociedade civil e o Estado moderno. Ao fundo deste movimento, a ideologia do laissez-faire condicionou o homem a racionalizar todo e qualquer processo relacionado ao trabalho como produto da relação pertencente às ciências naturais e a às ciências sociais, mas este processo, enquanto forma, nem sempre obedece um fundo e um pressuposto racional, ao contrário, seu fundo é algo irracional no que diz respeito à vida social.

Antes de qualquer outra coisa, é preciso evidenciar que a ciência está carregada da ideologia liberal desde o advento da modernidade, ou seja, perde-se o seu senso moral e realiza-se de maneira utilitária, extremante racional ao dizer-se "imparcial". O que acontece é que, neste sentido, a descoberta transforma-se em mudança, isto é, a preocupação em fundar um conhecimento a posteriori sobre a realidade passa a ter o interesse em utilizar todo o conhecimento produzido de maneira aplicável para mudar; "melhorar" a maneira de organização do trabalho. Com o objetivo de mudar e melhorar a organização do trabalho, em busca do progresso, o sujeito encontra-se condicionado ao seu dever de especialista do saber prático, tornando-se um mero reprodutor desta sociedade, por ora, civil e do Estado moderno. De maneira não diferente, campos de estudo totalmente tecnoburocratizados ampliam a estrutura econômica capitalista e podem pensar em como reforçar tal modo de produção produzindo resultados satisfatórios para as organizações econômicas e, também, satisfatórios para o proletariado, uma vez que este, quando ainda não descobriu seu interesse geral como ser genérico, é induzido a conceber-se como parte de uma soma e não de uma totalidade social.

É nesse sentido que surge o fenômeno que pode ser chamado de "pós-modernismo", uma teoria que não é a posteriori pois não tem como seu objeto material, de fato, a realidade e possui uma preocupação aplicável. Qual sua preocupação aplicável visível e, de certa maneira, risível? Tornar a vida das pessoas melhores com pequenas mudanças organizacionais - que fortalecem a estrutura moderna de reprodução do capital - e pequenas mudanças no cotidiano das pessoas. Ao realizar-se desta maneira, permito-me colocar que o principal expoente deste problema é o pensamento que separa o indivíduo da sociedade. O ser é social, desde Marx. O rompimento da filosofia marxista para com a modernidade não pode ser negado e é por isso que não pode ser superado, pois ainda não rompemos nosso pensamento social com o pensamento civil; moderno. Onde entram, então, a dissonância cognitiva e a transformação do fenômeno em espetáculo? A dissonância cognitiva aparece como esta espécie de pensamento que ignora a teoria a posteriori e reforça a crença em religiosa em sabe-se lá o quê - que eu prefiro definir estritamente como consumo para o consumo e não consumo para si - através da aplicação do conhecimento, isto é, o conhecimento sobre a realidade material existe, mas ele parece ser negado, em função do culto à ação - uma antiga crença social, muito parecida a tecnoburocracia senão, talvez, ela mesma.

A transformação do fenômeno em espetáculo é fruto do relativismo e do isolamento ilusório do indivíduo da sociedade, ou seja, a noção de que o homem é egoísta e por isso seu ímpeto libertário não pode conversar com a cultura, onde a cultura somente reprime este ímpeto, trata-se uma visão quase psicanalítica; é uma visão do indivíduo para o indivíduo que não serve à psicologia social senão à psicologia clínica - que, de fato, é importante no que tange à ciência, mas não deve-se tratar como concepção de mundo. O relativismo postulado, neste sentido, elimina o julgamento moral de toda e qualquer ação - o que não é em si necessariamente o problema -, mas traz à compreensão da realidade um fenômeno superado pela fenomenologia e, também, pelo materialismo histórico: a noção de essência das coisas, isto é, para o relativismo não há um julgamento moral sobre a vida humana, mas há uma maneira certa de viver: uma maneira sem julgamento moral. Neste ponto, imerso na estrutura capitalista e, infelizmente, incapaz de enxergar isso, a questão da pós-modernidade não percebe que retoma estes aspectos desde muito já superados e não se preocupa em produzir conhecimento sobre a alteração da realidade material que encontra.

Desta maneira, pode-se dizer que a pós-modernidade "não existe" senão no imaginário ilusório das pessoas. Sua dissonância cognitiva e a transformação do fenômeno em espetáculo - que recai sempre em consumo e expansão do capital - são fruto da própria modernidade, não possuem o desejo de alterar a realidade da qual se vive no sentido revolucionário que é o de alterar e superar o pensamento estrutural que, por ora, é o da sociedade civil e da reprodução de capital através do Estado moderno. Isto, é claro, se repercute no ocidente e do ocidente para o oriente.

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