capitalismo

As montanhas não irão para lugar nenhum: uma resposta para São Roedel acerca da condição econômico-política do Rio Grande do Sul


Texto de Felipe Taufer - Bacharelando em Administração pela Universidade de Caxias do Sul (UCS).

Retrato da competitividade internacional de São Roedel
Desde os princípios do século XVIII a civilização ocidental encontrou neste reduto, que hoje é nossa terra, uma passagem para levar o gado espanhol da fronteira às minas. Surgia, então, a civilização do gado. Alguns desses tropeiros deixavam relatos de que haviam indígenas por aqui – sim, tinha linguagem no Rio Grande antes da imigração! – e que cultivavam um sistema rotativo de plantação e colheita do milho. Não haviam trocas monetárias e, muito menos, um modo europeu-civil de se viver, mas tinha economia. Existia uma produção material da vida.
Sem contar que nos auspícios do século XIX a população de descendência africana, ou seja, quem realmente trabalhava - trabalho escravo! Esse tipo de trabalho apoiado pela tal da competitividade internacional nas entrelinhas dos discursos de Michel Temer, São Roedel e liberalecos bancários que se pretendem economistas -, era muito presente nos municípios gaúchos nos quais a charqueada era superior em relação a atividade pecuária, justamente onde a civilização do gado se estabelecia em uma área de propriedade rural e, ao invés de usar os animais para o transporte à Minas Gerais e São Paulo, produzia o charque nos famosos galpões cobertos – daí a referência e histórica cultural do extremo sul do Rio Grande e a força da indústria saladeiril.
Os imigrantes alemães são conhecidos por iniciarem a plantação de fumo e de algodão e, mais do que isso, por serem pioneiros na “revolução agrícola” do Estado. Com efeito, percebe-se que aprenderam com indígenas, assim como os outros imigrantes, por exemplo, os italianos, a cultivar um sistema de plantio. Contudo, com o estabelecimento de uma sociedade civil europeia que matou e despertou a fuga dos índios e sua cultura aqui presente, inicia-se a vida moderna gaúcha; inicia-se uma a vida comercial gaúcha, na qual a mão-de-obra assalariada substituía a mão-de-obra escrava. O modo de produção capitalista emerge no Rio Grande do Sul, as trocas antes realizadas nas Minas Gerais e em São Paulo, encontram aqui não mais uma passagem, mas um novo território de real exploração.
A modernização da mão-de-obra, como referida, junto das políticas imperiais brasileiras, contribui para especialização da economia logo após a abolição da escravidão. O que quer dizer isso? O “mercado”, como representação dos interesses vis, cruéis e lucrativos da burguesia internacional já consolidada e da formação dos grandes proprietários rurais nacionais, já começava a ser endeusado. O discurso era “o mercado já não quer mais trabalho escravo, quer mão de obra assalariada” – mas parece ser só hoje que o “mercado” começa a ser levado em conta! Faz-se mister observar que o racismo é, antes, produto material do que produto cultural no Brasil, uma vez que a população africana que habitava o território ficou jogada às margens, totalmente explorada e sem “especialização” suficiente para trabalhar nas propriedades de imigrantes. Ora, o processo de arianização no Rio Grande do Sul é a verdade da modernização econômica; o capitalismo dependente é em si racista.
Com o acumulo de capital dessa nova classe proprietária, os imigrantes, com o passar do tempo, possibilita-se a industrialização, valendo-se da mão-de-obra que não tinha emprego nas colônias; a exploração do campesinato. Mesmo assim, a industrialização foi tardia e ainda não está completa.
Sem industrialização, qualquer um sabe, não há desenvolvimento. São as condições materiais proporcionadas pelo trabalho industrial que modernizam e urbanizam territórios – mesmo que muitos, por isso, estejam compelidos pelo chicote da fome! Essas, por obséquio, são as contradições inerentes e repugnantes do modo de vida global atual que não muda, por assim dizer, desde a Revolução Industrial e aprofunda seu processo de intensificação da exploração no Rio Grande do Sul, no Brasil e em toda América Latina através dos novos jargões dos liberalecos, dos neo-desenvolvimentistas e dos intelectuais orgânicos da burguesia, como "nova economia" ou "economia compartilhada", valendo-se de mudanças organizacionais como fenômenos “positivos” aos trabalhadores.
Complexidade, avanço tecnológico, nova economia, mudanças organizacionais, globalização, economia compartilhada... Tratam-se de meras mudanças orgânicas, não há complexidade nenhuma que essas mudanças enriqueçam à qualquer economia. Não há alteração da estrutura social básica e nem do regime de propriedade que possam favorecer a classe trabalhadora. São forma, não são fundo. O fundo é o mesmo, o espectro de representação oriundo deste fundo que sociometabolicamente muda conforme as tendências não passam de instrumentalidades. Assim, a humanidade ainda não é capaz de ver as montanhas se moverem, mas alguns membros, que promovem a inércia através da organicidade da forma, como São Roedel, enxergam aí oportunidades para competitividade internacional!
Hoje, São Roedel e seus discípulos, além de horrorizarem qualquer alternativa à exploração capitalista, valem-se do espectro de representação; usam e abusam da forma para negar a possibilidade de uma mudança radical em nosso modo de vida e justificam, através de uma mera formalidade racional de um fundo irracional, seus valores e suas as crenças encontrando uma desculpa para dizer que o modo de vida mudou. Talvez seja porque nunca foram escravos de uma charqueada, talvez seja porque nunca foram indígenas expulsos de seus territórios, talvez seja porque são os mesmos que ainda promovem o processo de arianização que hoje é pautado somente pela intensificação da exploração colonial rio-grandense e brasileira. Talvez seja porque apelidem a exploração de lucro e nunca gastaram um suor para produzir a vida materialmente.
A economia não está mais complexa, suas formas intermediárias é que estão mais fortes e seus valores estão em decadência. A humanidade ainda não foi capaz de encontrar um outro modo de vida e quando encontrou uma luz que o despertasse, um movimento real da história que o pusesse em curso, infelizmente, fez questão de o demonizar e horrorizar. Ora, montanhas ainda não se movem. Mentira, tudo está em movimento. Porém, sabe-se que não irão a lugar nenhum. Não sairão dos Andes para ir aos Alpes. Ainda que os donos dos Alpes mudem a forma com que agarram e apropriam-se dos Andes. O óbvio tem que ser dito algumas vezes.

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