Artigo

Um pequeno texto sobre método em Marx


UM PEQUENO TEXTO SOBRE MÉTODO EM MARX










Frederico Lambertucci - Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Grande Dourados. 


         Esse texto tem como finalidade uma pequena iniciação a discussão de método e de ontologia em Marx, evidentemente, os já iniciados vão encontrar no texto "obviedades" ou assim espero. Contudo, como ainda ronda um espírito gnosiológico em torno da elaboração marxiana, e as discussões são quentes nesse núcleo, o texto apenas indica questões.

       A universidade é hoje dominada pelo neokantismo, neopositivismo e cia, e não é casual que nos projetos, desde TCC até os pós-doutorados requerem geralmente do pesquisador aquele velho e conhecido "formulário" pedindo para que ele elenque categorias com as quais irá abordar o objeto, ou para nós, a coisa, é também para nós evidente que o pesquisador que inicia sua investigação pelas categorias já não possui nada a investigar, isto porque as categorias são expressões de uma investigação já avançada, não em status nascendi. Não se poderiam elencar categorias que expressam o objeto investigado aprioristicamente à investigação, isto seria metafísica, a aplicação ao objeto de uma lógica exterior a sua própria e que lhe é estranha.


Nosso método de investigação – se é possível ou mesmo plausível chamar de método – é o crítico-ontológico ou mais conhecido como materialista histórico e dialético. Para esclarecermos tal perspectiva; não trabalhamos com categorias a priori, ou mesmo com enunciados:


[...], a teoria não se deduz ao exame das formas dadas de um objeto, com o pesquisador descrevendo-o detalhadamente e construindo modelos explicativos para dar conta – à base de hipóteses que apontam para relações de causa/efeito – de seu movimento visível, tal como ocorre nos procedimentos da tradição empirista e/ou positivista. E não é, também, a construção de enunciados discursivos sobre os quais a chamada comunidade científica pode ou não estabelecer consensos intersubjetivos, verdadeiros jogos de linguagem ou exercícios e combates retóricos, como querem alguns pós-modernos. (NETTO, José Paulo, p. 4 e 5[1]).

Teoria aqui, se pudermos exprimir em uma frase é a “reprodução ideal do movimento real do objeto na cabeça do pesquisador”. A determinação primária desse processo é a determinação ontológica que constitui o momento predominante no processo de conhecimento, portanto, se sobrepõe como determinante à epistemológica.

O conhecimento teórico “é o conhecimento do objeto tal como ele é em si mesmo, na sua existência real e efetiva, independentemente dos desejos, das aspirações e das representações do pesquisador”. (NETTO, p. 5). Este conhecimento, no entanto, não é mera representação, ou mesmo mera descrição, mas sim a reprodução da dinâmica e estrutura do objeto, em sua efetividade, em seu movimento imanente.  

Deste modo, o conhecimento teórico depende da fidelidade do sujeito para com seu objeto, isto é, da sua relação ser de apropriação da matéria, das suas miudezas moventes, encontrando suas determinações intimas. Marx esclareceu sua concepção quando em O Capital nos disse que:



Por sua fundamentação, meu método dialético não só difere do hegeliano, mas é também sua antítese direta. Para Hegel, o processo do pensamento, que ele sob o nome de Ideia, transforma num sujeito autônomo, é o demiurgo do real, real que constitui apenas sua manifestação externa. Para mim, pelo contrário, o ideal não é nada mais que o material transposto e traduzido na cabeça do homem. (MARX, 1983: 20).


Isto significa que Marx apreende – e, isso se liga diretamente as determinações últimas da relação sujeito e objeto que são apreendidas na relação fundamental e fundante que é o trabalho – sobre a investigação uma determinação não de caráter epistemológico, mas ontológico, a subjetividade é composta por matéria em um estado superior de organização, não é casual que Feuerbach a quem Marx tanto elogiou e respeitou por ter sido o primeiro filósofo a ter dado o passo na superação do idealismo foi presente em um curto período na articulação teórica marxiana – ademais de ter dado o passo fundamental da “virada” ontológica – e Hegel esteve presente até as últimas elaborações, como a citação acima demonstra.

Isto se explica pelo materialismo dualista de Feuerbach que opunha o real ao ideal como formas separadas e não-mediadas, a aproximação de Hegel consiste em seu monismo, ademais que esteja com os pés fincados no céu, donde conforme a citação, deriva o real do ideal, o real permanece como Ideia exteriorizada, que toma a forma alienada, mas esse pôr alienado é mediado pela atividade, e configura ainda a Ideia exteriorizada como uma externalidade estranha a Ideia.
Como nos diz Mészáros:



O segredo do êxito de Marx em transcender radicalmente os limites do materialismo dualista, contemplativo, é a sua compreensão incomparavelmente dialética da categoria de mediação. Pois nenhum sistema filosófico pode ser monista sem dominar conceitualmente, de uma forma ou de outra, a complexa inter-relação dialética de mediação e totalidade. (MÉSZÁROS, 2006: 85).

A mediação possibilita a explicitação da relação sujeito e objeto em sua articulação substantiva, real, compreendendo-as assim como unidade do diverso, em que a primeira se constitui ativamente conforme suas objetivações e exteriorizações constituídas em seu pôr teleológico. Nessa relação sujeito e objeto, ademais que constituam-se como diversos, são ambas as partes matéria em formas distintas, eis o materialismo monista de Marx.

Contudo, esclareçamos que a subjetividade ademais de ser matéria em estado superior de organização não possui identidade com o objeto, - nem com o que se confronta em estado natural (causalidade natural), nem os que são seus objetos, postos por seu trabalho (causalidade posta) –, suas determinações, por serem ontologicamente posteriores à realidade natural, e por serem secundárias na relação entre sujeito e objeto – mesmo que o objeto em questão sejam as relações sociais, a sociedade – em que a primazia está no movimento do objeto, não são menos importantes, ou seja estáticas, passivas no processo de conhecimento.

 Por hora, foquemos nessa relação, o objeto para Marx “tem existência objetiva; não depende do sujeito, do pesquisador, para existir” (NETTO, p. 5), e o objetivo do pesquisador é:



[...], indo além da aparência fenomênica, imediata e empírica – por onde necessariamente se inicia o conhecimento, sendo essa aparência um nível da realidade e, portanto, algo importante e não descartável –, é apreender a essência (ou seja: a estrutura e a dinâmica) do objeto. (NETTO, José Paulo, p. 5).
  
É, portanto alcançando a essência do objeto, apreendendo sua dinâmica e estrutura e realizando sua síntese no pensamento que se pode reproduzir o concreto como concreto pensado, no plano ideal.

Aparece-nos uma questão, o sujeito que pesquisa a sociedade se vê imbricado no objeto, o que significa que: “a relação sujeito/objeto no processo do conhecimento teórico não é uma relação de externalidade, tal como se dá, por exemplo, na citologia ou na física [...]” (NETTO, p. 6), isto exclui qualquer pretensão de neutralidade, contudo, neutralidade não significa impossibilidade de conhecimento objetivo. A teoria possui uma forma de verificação de sua verdade, de sua factualidade, está é a prática social e histórica, ou como nos dizem Marx e Engels nas suas Teses ad Feuerbach;

A questão de saber se ao pensamento humano cabe alguma verdade objetiva [gegenständliche Wahrheit] não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na prática que o homem tem de provar a verdade, isto é, a realidade e o poder, a natureza citerior [Diesseitigkeit] de seu pensamento. A disputa acerca da realidade ou não realidade do pensamento – que é isolado da prática – é uma questão puramente escolástica. (MARX e ENGELS, 2007: 537).

Prossigamos para a questão da subjetividade, o objeto que o pesquisador traspõe para o plano ideal, não é mero espelhamento, como uma foto, o sujeito que pesquisa para negar a aparência do seu objeto – isto é, negar no sentido de transcender – e tomar a raiz, os fundamentos de seu objeto, precisa ser um sujeito rico subjetivamente, acumular uma carga de conhecimento produzido pelas objetivações do gênero humano e subjetivando-as tornar-se capaz de como diz Marx “[...] captar detalhadamente a matéria, analisar as suas várias formas de evolução e rastrear sua conexão íntima.” (MARX, 1983, 20).

Dito isto, não é de modo algum casual que Marx, contrariamente a Weber, Durkheim não tenha escrito sobre método e metodologia, a rigor, não há método para Marx, há a prioridade ontológica do objeto sobre o pesquisador, mas não pode haver, nessa relação, um método que esteja fora, que seja externo ao objeto do pesquisador, o método consiste na forma de apropriação da matéria, mas é o objeto que dá ao pesquisador o seu caminho particular, porque justamente o objeto é sempre um objeto particular, ademais que contenha em si universalidade. Por isto, o que chamamos de método em Marx não é desvinculável do seu objeto de pesquisa, da sociedade burguesa e seus fundamentos, expostos rigorosamente em O Capital.

Reafirmemos, portanto, que a orientação é de caráter ontológico e não epistemológico, estando a segunda subsumida à primeira, não há aqui a questão sobre a forma de conhecer, mas sim a forma de conhecimento de um objeto determinado, eis uma diferença crucial de Marx e Hegel, não há em Marx uma lógica dialética universal, uma lógica universal do movimento real, como por vezes as concepções vulgares atestam, a lógica é a lógica de um objeto determinado, esta lógica só existe no interior das determinações de existência, das determinações ontológicas do objeto, eis o movimento auto imanente em sua processualidade ontológica-lógica, ou nas palavras mais qualificadas de Lukács:

Ao tratar de Hegel, já havíamos observado que Marx, em nome da peculiaridade ôntica concreta das formações sociais, exige a sua investigação ôntica concreta (ontológica), ao mesmo tempo em que rechaça o método hegeliano de expor essas conexões sobre a base de esquemas lógicos. (LUKÁCS, 2012: 284).

O objeto é, portanto, sempre o concreto, o ôntico, e o concreto só é concreto porque “síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso” (MARX, 2008, 260), mas o concreto real só pode ser inquirido com a abstração efetuada pelo pensamento, que toma parte do real como uma totalidade, e vai abstraindo suas determinações concretas, até chegar as determinações mais simples. Tomando essas determinações simples, ainda não é o suficiente para o conhecimento do objeto, é necessário retornar ao concreto encontrando as interpelações, mediações e determinações do todo. São essas determinações abstratas que segundo Marx “conduzem a reprodução do concreto por meio do pensamento” (MARX, 2008, 261) – não é por outro motivo que “o concreto aparece no pensamento como o processo de síntese, como o resultado e não como o ponto de partida, embora seja o verdadeiro ponto de partida, [...]” (MARX, 2008: 260-261).

O método, que diz Marx, consiste em “elevar-se do abstrato ao concreto, não é senão a maneira de proceder do pensamento para se apropriar do concreto, para reproduzi-lo mentalmente como coisa concreta” (MARX, 2008: 261). Esse concreto é uma totalidade pensada, que não pode ser mais que a totalidade concreta, existente fora da cabeça do pesquisador. Ela, no entanto, só pode ser exposta por categorias que expressem as determinações, mediações e as relações internas dessa mesma totalidade em seu movimento, apreendendo suas determinações intimas, aparecem suas tendências e é possível visualizar o movimento das formas, traços determinativos do vir-a-ser-outro do objeto determinado, da totalidade, do concreto real que se tornou concreto pensado, reproduzido idealmente.

Até o momento falamos da relação entre sujeito e objeto e da apreensão do objeto pelo sujeito, aqui trata-se de determinar como no processo de pesquisa as categorias surgem e o que são categorias e os conceitos.

Precisemos o significado de “determinações”; determinações aqui são “determinações de existência” como Marx diz na Introdução dos Grundrisse:

Como em geral em toda ciência histórica e social, no curso das categorias econômicas é preciso ter presente que o sujeito, aqui a moderna sociedade burguesa, é dado tanto na realidade como na cabeça, e que, por conseguinte, as categorias expressam formas de ser, determinações de existência, com frequência somente aspectos singulares, dessa sociedade determinada, desse sujeito, e que, por isso, a sociedade, também do ponto de vista científico, de modo algum só começa ali onde o discurso é sobre ela enquanto tal. (MARX, 2011: 59).

As categorias mesmas, então, expressam “formas de ser, determinações de existência”, são categorias ontológicas, essas “determinações as mais simples”, estão como diz Zé Paulo “postas no nível da universalidade; na imediaticidade do real, elas mostram-se como singularidades – mas o conhecimento do concreto opera-se envolvendo universalidade, singularidade e particularidade.[2] ” (NETTO, p. 13). Essas categorias são ontológicas por expressar formas determinadas de ser, traços essenciais da realidade social.

Mas, esclareçamos que essas categorias ontológicas são históricas, pois o objeto que expressam possui um movimento real, que lhe é próprio e que em sua processualidade possui um devir, a sua determinação intima de um vir-a-ser-outro, e por isto qualquer teoria é também histórica, contingente e determinada pelo seu fundamento sócio histórico.



[1] Disponível em http://pcb.org.br/portal/docs/int-metodo-teoria-social.pdf. As citações seguintes que tem como referência o Prof. José Paulo Netto são todas do texto já citado.

[2] A discussão entre Singularidade, Particularidade e Universalidade é discutida com riqueza por Lukács em “Introdução a uma estética Marxista”, Capítulo IV.


Referências

Marx, Karl. Contribuição à crítica da economia política. Expressão Popular. 

Marx, Karl. Engels, Friedrich. A Ideologia Alemã. In Teses Ad Feuerbach. Boitempo Editorial.

Marx, Karl. Engels, Friedrich. A Sagrada Família. Boitempo Editorial.

Netto, José Paulo. Introdução ao método da teoria social. In pcb.org.br/portal/docs/int-metodo-teoria-social.pdf

Lukács, Gyorgy. Para uma Ontologia do Ser Social I e II. Boitempo Editorial. 

Mészáros, István. Filosofia, Ideologia e Ciência Social. Boitempo Editorial. 

Mészáros, István. A teoria da alienação em Marx. Boitempo Editorial. 


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