ética

Características básicas do Humanismo

O trecho que se segue abaixo é d'O Livro das Religiões, escrito pelo mesmo autor de "O Mundo de Sofia" , Jostein Gaarder. 



Páginas 254 à 256, do Capítulo; "Filosofias de vida não religiosas":



COMPREENSÃO DA REALIDADE

 O humanismo se caracteriza por uma forte confiança na razão humana. Mas a razão é apenas um dos instrumentos que empregamos para compreender o mundo. Precisamos usar também nossa capacidade de recolher experiências. Todas as opiniões devem se fundamentar em nossa experiência. Nossa razão e nossa experiência é que formam a base de tudo o que conhecemos do mundo. 

O ser humano não pode afirmar que Deus existe utilizando apenas sua razão ou sua experiência. Mas tampouco é possível dizer com certeza que não existe Deus. Para expressar essa posição, o humanista costuma se definir como agnóstico. Os humanistas reconhecem que as faculdades humanas são limitadas. Há perguntas que não conseguimos responder. Há enigmas que não conseguimos solucionar. Mesmo assim, faz parte do ser humano formular ideias acerca do desconhecido. O importante é não transformar essas ideias em princípios religiosos absolutos. Segundo os humanistas, é isso que fazem as religiões. Desse modo, na prática, os humanistas assumem o ponto de vista ateu. Eles vivem como se Deus não existisse. Não aceitam nenhuma realidade sobrenatural, porque não têm base alguma para acreditar numa tal realidade. De acordo com os humanistas, só existe uma realidade que tem sentido para a vida humana. 

Como o humanismo não reconhece nenhum destino ou vontade divina que controle a vida dos homens, destaca que o homem deve confiar em si mesmo. O homem é senhor de si mesmo e só deve depender de si mesmo e de suas próprias capacidades.


ATITUDE PARA COM A HUMANIDADE

 A atitude humanista para com o ser humano é positiva e otimista. O homem tem grande valor e potencial. E ele é naturalmente bom. [...] Ele tem mais capacidade e mais potencial do que qualquer outra criatura. E tem uma liberdade muito diferente da de qualquer outro ser vivo. Outro ponto capital: ele tem a capacidade de criar algo por meio de seu trabalho e de suas atividades artísticas. 

O homem também é parte da natureza e está sujeito às leis da natureza. A "alma" do homem é total e inseparavelmente ligada ao funcionamento da mente dele. O humanismo não aceita a ideia de que o homem tenha uma alma eterna. Depois da morte, o homem não tem mais consciência. Segundo os humanistas, cada ser humano é uma criação única. Mas embora sejamos diferentes, todos os homens têm igual valor. A tolerância mútua das diferenças que distinguem as pessoas é um dos ideais mais importantes do humanismo. 

Também é importante a ideia de que nenhum homem pode ser usado como um meio para algum outro fim — seja esse fim uma "necessidade histórica", um objetivo político mais alto ou algo do gênero. Muitas vezes os seres humanos conseguem ver um propósito em "se sacrificar" por uma causa, mas eles nunca devem ser sacrificados involuntariamente pelos fins de outras pessoas. Cada ser humano é um fim em si mesmo. Ele nunca deve ser tratado como um mero número na multidão. O objetivo ideal é que todos os seres humanos consigam realizar seu potencial e seus talentos. A felicidade e a realização do indivíduo são, portanto, fundamentais no humanismo. 

Com sua ênfase na singularidade de cada pessoa, o humanismo possui uma visão individualista da vida. Mas o homem não vive apenas para si mesmo e para sua família. Os humanistas se identificam com o gênero humano como um todo e têm uma visão otimista do desenvolvimento da humanidade. Ao longo de alguns milhares de anos, passamos da Idade da Pedra para a Era Atômica. E continuamos a progredir, tanto tecnologicamente como em nossa capacidade de sermos humanos — ou seja, de demonstrarmos cuidado e preocupação com os outros.





ÉTICA

Os humanistas acreditam que, em virtude de sua razão, o homem sabe a diferença entre o certo e o errado. O homem não precisa de nenhum mandamento ou regra externa. Certos valores e normas básicas podem ser estabelecidos com base puramente na razão humana. É isso que se quer dizer com a expressão ética humanista. 

O princípio ético superior do humanismo é a Regra de Ouro: trate os outros como você gostaria de ser tratado. Essa regra é mais conhecida por fazer parte do Novo Testamento, mas muitos humanistas apontam que ideias semelhantes já foram expressas por outras culturas, inclusive no judaísmo (Levítico 19,18). Assim, preferem chamar a regra de princípio da reciprocidade. O essencial é que, segundo os humanistas, esse princípio pode ser estabelecido sobre uma base humana. 

Outros princípios humanistas importantes são o respeito pela dignidade humana e a inviolabilidade do indivíduo. Os direitos humanos, tal qual detalhados em diversas declarações de direitos humanos, constituem o próprio cerne da ética humanista. Como membros da raça humana, é nossa responsabilidade lutar pela liberdade, igualdade e justiça, tanto em nosso próprio país como no resto do mundo. 

Com sua ênfase na vida sobre a terra, no aqui e agora, os humanistas apoiam uma prosperidade material crescente. Mas esse objetivo deve ser constantemente julgado de acordo com valores fundamentais e com a qualidade de vida no sentido mais amplo. A meta não é alimentar um impulso cego para a eficiência, nem um materialismo complacente. Nesse caso, o humanismo critica o progresso materialista e tecnológico unidimensional — seja sob forma socialista ou capitalista.


1 comentários:

  1. Vou elencar uns pontos.

    - Agnosticismo: bundamolismo anti-ontológico e pequeno-burguês.

    - "todos os homens têm igual valor": a igualdade entre vendedores e compradores de mercadorias (onde as coisas se diluem no valor) levada à antropologia filosófica.

    - "tolerância mútua das diferenças": princípio ecumênico do mercado, onde o indivíduo é abstraído e o que interessa é seu dinheiro.

    - "é importante a ideia de que nenhum homem pode ser usado como um meio para algum outro fim": o tipo de idéia que só ocorre à mente de alguém na medida que a sociabilidade a desmente por completo.

    - "Certos valores e normas básicas podem ser estabelecidos com base puramente na razão humana": como se a lógica pudesse substituir a vida comunitária da qual tais valores e normas surgem e na qual fazem sentido!

    - "trate os outros como você gostaria de ser tratado": o "eu" como fundante do "nós" - individualismo burguês em estado puro, sintoma da irrealidade da ética.

    - "Os direitos humanos, tal qual detalhados em diversas declarações de direitos humanos, constituem o próprio cerne da ética humanista": Marx já disse o que tinha de ser dito a respeito disso (na Questão Judaica, principalmente, e tb em outros lugares).

    - "Como membros da raça humana, é nossa responsabilidade lutar pela liberdade, igualdade e justiça, tanto em nosso próprio país como no resto do mundo": como é curioso que este nacionalismo entre sorrateiro no discurso cosmopolitista e pretenda passar batido!

    - "os humanistas apoiam uma prosperidade material crescente": afinal, o imperativo maior do capitalismo é o "desenvolvimento", e dane-se se isso se mostrar como uma inflação do fetichismo ou um câncer econômico.

    - "Mas esse objetivo deve ser constantemente julgado de acordo com valores fundamentais": a crença na ética e na razão como poderes materiais de controle da propriedade privada.

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