Artigo

Economistas ou ideólogos? – Uma crítica marxista




Sempre vemos aqueles seres ditos economistas com suas linguagens técnicas em redes de rádio e TV falando sobre capitalismo, crise, crescimento econômico, [des]emprego, etc. Só que, na verdade, a maioria dos economistas são apenas devotos de um Deus – o Deus-mercado.  Não obstante, a internet, nesses últimos anos, têm-nos revelado alguns desses adeptos, com páginas, perfis de usuários e até mesmo sites de “Institutos”. Alguns deles até bem “letrados”. Mas quem disse que diploma é sinônimo de verdade?

Neste texto a seguir trago críticas de uma perspectiva galgadas à Marx e os críticos da economia política – o capitalismo – no ponto de vista crítico. Sendo um assunto em voga – e importante, muitas pessoas têm pouco conhecimento (não que eu seja um amplo conhecedor) do que se tratam todas essas coisas que vemos e ouvimos sem, ao menos, questionar a relevância e carga teórica por detrás daquilo que tais economistas vociferam.

O texto trará perspectivas, algumas ideias, etc. de alguns autores considerados importantes e que servem de “suporte” teórico para tais economistas e aspirantes.


“A burguesia, pelo rápido melhoramento de todos os instrumentos de produção, pelas comunicações infinitamente facilitadas, arrasta todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização. Os preços baratos das suas mercadorias são a artilharia pesada com que deita por terra todas as muralhas da China, com que força à capitulação o mais obstinado ódio dos bárbaros ao estrangeiro. Compele todas as nações a apropriarem o modo de produção da burguesia, se não quiserem arruinar-se; compele-as a introduzirem no seu seio a chamada civilização, i. é, a tornarem-se burguesas. Numa palavra, ela cria para si um mundo à sua própria imagem.” – Marx, Manifesto do Partido Comunista, 1848.


Em um artigo recentemente lido – com título “Marx, Keynes, Hayek e a Crise do Capitalismo” (que deixarei como recomendação de leitura ao final deste texto) – onde também serviu para montagem de alguns argumentos deste, diz, entre outras coisas:

“As limitações dos economistas clássicos e dos modernos defensores do livre mercado – ou seja, os monetaristas – decorrem precisamente de seu tratamento não dialético da economia. Para estes teóricos econômicos, a economia é um sistema simples e mecânico. Suas explicações são ora construídas sobre o modelo “Robinson Crusoé” da economia, em que existe apenas um indivíduo em uma ilha deserta e que é tanto produtor quanto consumidor, ora são semelhantes àquelas de uma simples economia de escambo, consistindo na troca de mercadorias entre os produtores individuais. Em ambos os casos, através da abstração da economia a este nível do indivíduo ou de uma simples troca entre produtores individuais, os economistas burgueses removem toda menção à divisão da sociedade em classes e à resultante luta que se eleva disto pelo excedente produzido na sociedade.

Em lugar de ver os modelos matemáticos da economia como abstrações e aproximações generalizadas de uma realidade infinitamente complexa, o que eles realmente são, os economistas burgueses modernos pensam que as equações são a realidade e que a economia deve estar em conformidade com seus modelos. Em vez de fazer a teoria se ajustar aos fatos, os fatos são forçados a se ajustar à teoria. Tendência idealista similar pode ser vista na moderna física, segundo a qual as teorias são julgadas pela beleza e simplicidade das equações, em vez de quão bem elas se ajustam aos fatos e explicam a vida real atual dos fenômenos existentes.

Em contraste a esta abordagem idealista, a economia marxista – baseada na visão de mundo materialista e dialética – busca chegar a conclusões generalizadoras voltando o olhar para a multidão de eventos e para a experiência histórica sob o capitalismo (e dos sistemas econômicos das sociedades de classe anteriores).

Como afirma Engels em sua polêmica contra Dühring: “(...) os princípios já não são o ponto de partida da investigação, mas seus resultados finais; não se aplicam à natureza e a história humana, mas deles são abstraídos; não é a natureza e o mundo dos homens que se regem pelos princípios, mas só estes é que têm razão de ser quando coincidem com a natureza e com a história. Nisto consiste a verdadeira concepção materialista da história, o oposto do que afirma o sr. Dühring, que é idealista e cuja concepção inverte todas as coisas, construindo o mundo real partindo da ideia, de uma série de esquemas, planos, categorias existentes e de valor eterno e anterior à existência do mundo, nada mais e nada menos que... um Hegel” (Anti-Dühring, capítulo III, Engels).

Contudo, também existe uma tendência oposta da ideologia burguesa que tenta negar a existência de quaisquer leis dentro do capitalismo. Para estas pessoas, a história e a economia são processos aleatórios, longe do domínio da investigação científica. Este conceito é igualmente tão idealista quanto à visão mecânica dos economistas clássicos, só que apontando para a direção oposta”.


John Maynard Keynes:


Durante muito tempo, o “Estado de bem-estar social” foi hegemônico na Europa pós-guerra mundial como meio de “controlar” o capitalismo por meio de regulações governamentais, fundamentalmente baseadas nas ideias do economista britânico John Maynard Keynes. E após a queda da economia planificada da URSS, após isso veio o chamado neoliberalismo, o reordenamento da economia segundo os preceitos pós quebra da socialdemocracia europeia keynesiana. Em suma, é a volta do liberalismo, mas de acordo com a realidade dos anos 80. (na verdade, não foi um colapso econômico que derrubou a URSS como é explicado neste link:  A queda da URRS e o mito do colapso econômico ).

Mas a dicotomia de “austeridade vs crescimento” não é verdade, tanto que estas palavras são, na realidade, apenas representam as duas alas ideológicas da mesma classe capitalista – neoclássica e keynesianismo – nenhuma das quais tem uma solução real para a crise – que é uma crise do próprio sistema. A crise global de 07-08 pôs tais economistas a debaterem tais ideias dos monetaristas (de forma grossa: capitalismo desregulado) e keynesianos (de forma grossa: capitalismo mais regulado). Só que como a crise tem se arrastado – e muito – colocou em xeque também tais escolas de economia, e aí que surge a crítica marxista (desde então ganhando mais adeptos): “o próprio sistema [capitalismo] gera seu próprio coveiro”, como diz Marx acertadamente.

Sobre o keynesianismo, é irônico que tenha hoje se tornado a ideologia dominante do movimento trabalhista, enquanto o próprio Keynes declarava abertamente seus interesses de classe ao afirmar que “a guerra de classe encontrar-me-á do lado da burguesia educada”. Ele era abertamente contrário ao socialismo e à Revolução Russa e foi consultor econômico e membro vitalício do Partido Liberal, o clássico partido do capitalismo britânico no século XIX e início do século XX.

Como todas as figuras políticas e econômicas, Keynes era um produto de seu tempo. Os primeiros representantes da economia política burguesa, como Adam Smith e David Ricardo, eram produtos de um capitalismo que ainda não se tinha desenvolvido plenamente e que ainda desempenhava um papel, de certa forma, progressista. No contexto deste capitalismo imaturo, estes economistas “clássicos” somente podiam adquirir a compreensão e a análise do sistema capitalista até este ponto. Foi somente com o desenvolvimento posterior do capitalismo e da massa acumulada de evidências e experiências que acompanhou esse desenvolvimento, incluindo a experiência de repetidos booms e recessões, algo que Marx foi capaz de desvendar a verdadeira natureza do capitalismo como, por exemplo, os processos e relações reais que jazem por trás do valor e da crise. Como Marx explica em O Capital:

“Teoricamente, partimos do princípio que as leis do modo capitalista de produção se desenvolvem em sua forma mais pura. Na realidade, trata-se apenas de uma aproximação; mas a aproximação é cada vez mais exata quanto mais o modo de produção capitalista se desenvolve e menos fica adulterado pelas sobrevivências das condições econômicas anteriores com as quais se amalgamaram” (O Capital, Volume III, capítulo 10; Marx).

Na tentar explicar o fenômeno da Grande Depressão de 1929 e do desemprego em massa, Keynes teve que romper com muitas hipóteses estabelecidas da economia clássica. Nisso, atribui-se a Keynes ter causado uma “revolução” na teoria econômica. Entretanto, não há nada de novo no que Keynes disse. A maioria de suas ideias já tinha sido expressa de forma muito mais precisa, minuciosa e clara nos escritos de Marx e Engels, porém Keynes meramente empacotou suas ideias de uma forma que fosse mais palatável para a burguesia.

A ideia de Keynes de criar demanda através de ações governamentais, como construções públicas, etc. era idealista. Os governos obtêm recursos através de impostos. Ou seja: tributar a classe capitalista (resultando em perdas nominais de lucros) ou tributar a classe trabalhadora (resultando em perda de poder de compra – e assim, a demanda). Para os keynesianos e líderes reformistas do movimento dos trabalhadores, inspirando-se em ideias keynesianas, a resposta é simples: devemos tributar os ricos e aumentar salários. O investimento que seria utilizado para evitar uma crise – em meios de produção – deve produzir mais, assim, aumentando a crise de superprodução. Os salários aumentados em alternativa para aumento de demanda significam “mordida” nos lucros capitalistas, porém reduz investimentos (que são para gerar mais lucros). Portanto, “criar” a demanda via governo, é uma das duas alternativas possíveis.

Por todo “O Capital”, Marx frequentemente sublinha a necessidade de se examinar a economia em sua totalidade, ao invés de simplesmente isolar aspectos específicos do sistema ou de se concentrar no comportamento de simples indivíduos e transações. Contudo, Marx também demonstrou que era a interação dialética dentro desta totalidade – entre trabalho e capital; entre salários e lucros; junto aos padrões que emergem das ações anárquicas e caóticas (e, mesmo assim, racionais) de muitos capitalistas diferentes, que era a chave para se entender a natureza dinâmica e dominada por crises do capitalismo.

Os economistas clássicos que precederam Marx foram incapazes de entender a origem do lucro, devido ao seu tratamento da economia, ou como um sistema de ilha deserta tipo “Robinson Crusoé”, no qual um homem é ao mesmo tempo produtor e consumidor, ou como uma simples transação entre um comprador e um vendedor, segundo a qual os lucros eram simplesmente criados no processo de circulação através de comprar barato e vender caro. Em ambos os casos, pela redução da economia a um ou a um par de indivíduos, a divisão da sociedade em classes se perde.


Ludwig Von Mises:


O economista Ludwig Von Mises (o messias dos imbecis) nasceu em Lemberg (atualmente Lviv), na Galícia, hoje parte da Ucrânia, mas então região do Império Austro-Húngaro. Judeu, filho de um engenheiro que trabalhava em ferrovias, não era rico, mas fazia parte da ascendente burguesia que lidava com os empreendimentos privados e florescia com duas atividades com maior influência em fins do século XIX: ferrovias e bancos. O principal livro de Ludwig Von Mises, “A Ação Humana”, não tem este nome à toa. A economia, ao contrário da história, segundo ele, não é uma ciência do passado e dos dados já acabados. O homem é um ser de ação, e até quando não age sua inação é uma escolha. Ação pressupõe desconforto, a tentativa de migrar de uma situação menos satisfatória para uma melhor, segundo uma avaliação subjetiva do agente.

Mas, ao que interessa, Mises foi ferrenho crítico de Marx. Só quem realmente tem a seriedade ao estudo da crítica marxista não cai nessa lorota do austríaco a ponto que em seu país foi conselheiro econômico do conservador Monsenhor Ignaz Seipel, responsável pelo chamado “Massacre de Viena de 1927”, e depois aderirá à fascista Frente Patriótica de Dollfus. Em sua obra chamada “Liberalism”, Mises vai considerar que o fascismo “havia salvado a civilização europeia” por manter a “propriedade privada” e que por isso ele “viverá eternamente na história” (p.344).

Mises, autor da escola austríaca, desenvolveu a chamada ‘praxeologia’, ou teoria da prática. Nela, o autor defende que a ação é um método para se alcançar um desejo, e que cada indivíduo terá seus desejos e métodos próprios. Portanto, o valor seria subjetivo. A máxima da escola austríaca, que um sujeito no deserto dá mais valor a um copo d’água que um diamante é vale, porém é uma constatação, e não uma explicação.

Primeiro, é importante citar que Marx não descartava o valor subjetivo, contudo diz: “A natureza dessas necessidades, se elas se originam do estômago ou da fantasia, não altera nada na coisa.” (Marx, 1863, p. 165). Mas, se pensarmos que o comportamento humano é movido apenas pelo subjetivo, teria que repensar o conceito de livre-arbítrio...

Ele escreveu um livro, em 1952, chamado “Marxism Unmasked: From Delusion to Destruction”, onde diz: “Esta é a ideia de Marx – assumindo que “interesses” são algo definido e além das ideias de uma pessoa. Esta ideia de doutrina de classe foi primeiramente desenvolvida por Karl Marx no Manifesto Comunista.”.

Mesmo sendo um “crítico” de Marx, o autor simplesmente não leu (ou se leu, não entendeu) o que o filósofo alemão comenta no Manifesto do Partido Comunista: “Será preciso grande perspicácia para compreender que as ideias, as noções e as concepções, numa palavra, que a consciência do homem se modifica com toda mudança sobrevinda em suas condições de vida, em suas relações sociais, em sua existência social? Que demonstra a história das ideias senão que a produção intelectual se transforma com a produção material? As ideias dominantes de uma época sempre foram as ideias da classe dominante.”.

Mas Mises consegue construir algo “instigante” na sua análise: afirma que os “interesses independentes obrigam os homens a pensar e agir de uma forma definida”. E ainda coloca essa aberração no colo de Marx. Ora, se os interesses estão independentes dos homens significa que os homens ainda não adquiriram consciência desses interesses. Logo não podem ser obrigados a pensar e agir por eles.

Ainda prossegue fazendo a crítica (tudo em ‘defesa da burguesia’): “O Socialismo já estava intelectualmente derrotado no tempo que Marx escreveu. Marx contestava seus críticos afirmando que aqueles que estavam em oposição eram somente “burgueses”. Ele afirmou que não era necessário derrotar os argumentos dos seus oponentes, mas somente desmascarar sua origem burguesa. E como sua doutrina não passava de ideologia burguesa, não era necessário lidar com isto. Isto deveria significar que nenhum burguês pudesse escrever alguma coisa a favor do socialismo. Assim, todos escritores estavam ansiosos para provar que eles eram proletários.”.

Aqui mostra o equívoco do austríaco, no qual é perigoso quando feito de forma leviana e arbitrária. Em “Crítica do Programa de Gotha”, Marx faz várias referências a aspectos da organização social no socialismo, logo não poderia considerar “utópico” quem se dedicasse a tal empreitada e à seriedade no estudo. No “Manifesto Comunista” ele criticou os chamados “socialistas utópicos” não por eles querer explicar como funcionaria o socialismo, mas por suas limitações e incompreensões do movimento histórico que os levavam a ações sem eficácia e até conciliadoras ao que se propunham eliminar.

No livro “A Ação Humana”, ele diz que “a descoberta da inevitável interdependência dos fenômenos do mercado destronou essa opinião. Desnorteadas, as pessoas tiveram de encarar uma nova visão da sociedade. Aprendendo estupefatas que existe outro aspecto, diferente do bom e do mau, do justo e do injusto, segundo o qual a ação humana podia ser considerada.” (Mises, Ação Humana, p. 22).

Errado. O autor se esquece que a economia de mercado ‘a ação humana’ nunca é livre e ponto final. Existem várias circunstâncias que inibem a ação humana – até mesmo interrompendo-a. Conflitos de interesses privados, o individualismo exacerbado, a corrupção, manipulação, censuras etc., tudo contribui para a quebra dessa premissa filosófica que não resiste um dia sequer na realidade material como vemos.

Aliás, Marx na “A Ideologia Alemã” claramente diz: “[Eles – filósofos idealistas] não dispõem de quaisquer premissas, temos de começar por constatar a primeira premissa de toda a existência humana, e, portanto, também, de toda a história, ou seja, a premissa de que os homens têm de estar em condições de viver para poderem “fazer história". Mas da vida fazem parte, sobretudo comer e beber, habitação, vestuário e ainda algumas outras coisas. O primeiro ato histórico é a produção dos meios para a satisfação destas necessidades, a produção da própria vida material, e a verdade é que este é um ato histórico, uma condição fundamental de toda a história, que ainda hoje, tal como há milhares de anos, tem de ser realizado dia a dia, hora a hora, para ao menos manter os homens vivos.  Assim, a primeira coisa a fazer em qualquer concepção da história é observar este facto fundamental em todo o seu significado e em toda a sua dimensão, e atribuir-lhe a importância que lhe é devida.”.

É curioso como Mises promove uma argumentação ambígua em relação ao jusnaturalismo. Em vários pontos de “As Seis Lições”, deixa claro que não há liberdade na natureza, porém em outros livros ele insiste na defesa do papel coercitivo do Estado para proteger o tripé de direitos (propriedade-vida-liberdade) que outros liberais (ou libertários) consideram naturais, portanto, com essa conclusão negariam a necessidade de um Estado (daí surge a vertente da maior parte dos  anarcocapitalistas).

A rejeição de Mises ao jusnaturalismo é bem conhecida.  Por exemplo, em “A Ação Humana”, na página 819, Mises afirma: “Na realidade, não há nada que possa ser considerado como um critério perpétuo do que seja justo ou injusto. A natureza ignora a noção de bem e mal. ‘Não matarás’, certamente, não é uma lei natural. (…) A noção de bem e mal é uma invenção do homem, um preceito utilitário concebido para tornar possível a cooperação social sob o signo da divisão do trabalho. Todas as regras morais e leis humanas são meios para realização de determinados fins.”.

Então, no “Uma Crítica ao Intervencionismo”, ele realmente foge da questão a respeito da fundamentação do asseguramento e da preservação da propriedade privada, como dito antes. Ele diz na página 19: “Medidas que são tomadas com o fim de preservar e assegurar a propriedade privada não é propriamente intervenções”, mas, em seguida, ele toma o assunto por óbvio e se furta de explicações: “Isso é tão evidente que dispensa maiores explicações, muito embora não seja totalmente redundante (…)”.

Essa relutância é um indicativo do furo óbvio mencionado acima. Ele mesmo percebe esse problema, e tenta contornar esse furo depois, na página 217 de “Ação Humana”, com o utilitarismo dele: “(…) os ensinamentos da filosofia utilitarista e da economia clássica não têm nada a ver com a doutrina do direito natural. Para elas, o que realmente importa é a utilidade social. Recomendam governo popular, propriedade privada, tolerância e liberdade. Não por serem naturais e justos, mas por serem benéficos. […] Os utilitaristas não combatem o governo arbitrário e os privilégios por serem contrários à lei natural, mas por serem prejudiciais à prosperidade.”.

Muitos jovens adeptos ao “capitalismo” (como se o capitalismo fosse algo denominativo) vêm nesse austríaco um bastião da Economia. Entretanto, só que esse cidadão sequer é lembrado nas academias (inclusive de seu país) devido suas falhas e irrelevâncias teóricas, mas ainda, sim, é utilizado como premissa até por certos ativistas e economistas que vemos por aí, especialmente na Internet. Mises, em sua “praxeologia” apresentada na “A ação humana”, induz que “O objetivo da praxeologia é o conhecimento válido para todas as situações onde as condições correspondam exatamente àquelas indicadas nas suas hipóteses e inferências. Suas afirmativas e proposições não derivam da experiência. São como a lógica e a matemática. Não estão sujeitas a verificação com base na experiência e nos fatos. São tanto lógica como temporalmente anteriores a qualquer compreensão de fatos históricos.” (Mises, Ação Humana, p. 59).

Esta afirmativa é a antítese perfeita para um historiador, um antropólogo, etc. para seus estudos. É claramente a negação da História.


Milton Friedman:


A doutrina econômica de Friedman foi seguida por vários governos, nomeadamente pela antiga primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, e pelo ex-presidente estadunidense Ronald Reagan, também na ditadura chilena de Pinochet. Controverso pelas suas posições conservadoras, Friedman era um feroz defensor ao que “não se pode pensar em liberdade econômica sem liberdade política”, premissa essa que não corroborou a realidade quando Thatcher e Reagan criaram um enorme aparelho de repressão. Primeiro, Thatcher, reprimiu duramente os sindicatos, as torcidas de futebol e o movimento trabalhista inglês, e o outro – Reagan, um facínora, além de extremamente racista e preconceituoso, foi responsável direto por milhares de assassinatos e guerras da política externa americana. Tudo para manter o status quo da burguesia.

A carreira de Friedman seria, ainda, marcada por uma série de estudos relativos ao consumo e pelo desenvolvimento do conceito da taxa natural de desemprego. Após a atribuição do Nobel, em 1976, tornou-se mentor do Instituto Hoover da universidade de Stanford, na Califórnia. Foi também colunista da revista semanal Newsweek e membro do departamento nacional de pesquisas econômicas (EEUU). Também a coluna “Mão Invisível”, que com outros colegas da Faculdade de Economia da Nova escrevemos há 20 anos criticava a intervenção excessiva do Estado em Portugal, o que os levou a ser apelidados de “Chicago Boys”.

Milton Friedman foi um dos fundadores da Escola de Chicago, um grupo informal de economistas provenientes do departamento de economia da universidade de Chicago defendia a redução do peso do Estado na economia e acreditava que a livre atuação das pessoas e dos mercados faria com que a economia se desenvolve. Para esta corrente, o melhor governo é aquele que governa menos lhe cabendo, sobretudo, controlar a oferta de dinheiro e criar condições para o correto funcionamento do mercado. Friedman desenvolveu, também, a teoria do monetarismo, que sublinha a importância do controle da emissão de moeda, e não de políticas fiscais, para combater a elevada inflação. 

Celebrizada pela defesa do liberalismo econômico na sua forma mais pura, a Escola de Chicago viria a estar envolvida em polêmica, quando alguns dos seus docentes, incluindo Friedman, foram conselheiros económicos da ditadura chilena de Augusto Pinochet. Para Friedman, qualquer ideia de regulação era uma coisa diabólica, “socialista”. Coisa que até Adam Smith discordaria, pois o mesmo alertara desde aquele tempo que o livre mercado, sem devida regulação (tributos, taxações, etc.) iria gerar monopólios e oligopólios. E foi lendo isso que Marx vai criar sua tese que os governos do estado modernos não são nada mais que um comitê para gerir os negócios da burguesia. Olhem, por exemplo, os últimos governos dos EUA criando guerras do nada pra levar empresas capitalistas onde antes não existiam. 

Friedman era a favor até da extinção do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em sua visão, os empréstimos do FMI retardam a velocidade de “ajustes necessários”, estimulam a persistência de políticas equivocadas e falsificam a percepção de risco dos bancos credores. E, como ardoroso defensor da liberalização cambial, Friedman se enfurecia quando ouvia dizer que o fracasso de um regime de câmbio fixo estimulado por quase uma década pelo FMI era atribuído à falência do liberalismo. Outra implicância de Friedman era com a política monetária do banco central norte-americano, o Federal Reserve (Fed). Atribuiu a erros do Fed boa parte da culpa na derrapagem rumo à Grande Depressão. Keynes, por sua vez, considerava a política monetária impotente para promover a saída do buraco negro do início dos anos 30. ¹

Chega-se a um quadro extremado, um ambiente em que, segundo Friedman, não há em hipótese alguma almoço grátis. Quem não se encaixa nessa regra por não possuir as condições de mesmo pressionado produzir mais, é frequentemente ignorado nesse mundo liberal. Friedman dizia que o sujeito só nada quando a alternativa a isso é afundar e morrer afogado. Ele apostava que a melhor maneira de produzir bons nadadores é não fornecer coletes salva-vidas nem equipes de salvamento. 

Um adepto às ideias de Mises, o estadunidense Gary North (um ultraliberal), em um artigo rebate algumas ideias – até mesmo contraditórias de Friedman. Diz que “Milton Friedman acreditava no livre mercado em quase todas as situações.  O problema era que, sempre que ele resolvia abordar aquela instituição coerciva e monopolista conhecida como governo, ele acabava criando soluções lógicas baseadas na ideia de que o governo poderia se tornar mais eficiente caso adotasse pseudo-arranjos de mercado.”. ²

Milton Friedman passou toda sua carreira defendendo a eficiência do tal ‘livre-mercado’.  Porém, quando se tratava das grandes questões, confiava na eficiência e na boa vontade de políticos e burocratas.  “Confie na eficiência deles”, dizia. Quando um economista recomenda uma política, ele também está recomendando seus efeitos. “Essa máquina inferna de criar dinheiro de papel, por conseguinte, gerou numerosas e lamentáveis consequências, mas a pior delas está no fato de ter facilitado a ilimitada monetização da dívida do governo americano no governo Nixon”, rebate Gary.


Hayek:


Friedrich Hayek, um dos mais destacados neoliberais, defenderá abertamente a maximização das liberdades para a classe proprietária (ou seja, a burguesia) ao afirmar que “prefere uma ditadura liberal a um governo democrático sem liberalismo”. Se ele “prefere uma ditadura liberal”, quantos liberais vimos se colocando contra a expansão do sufrágio e defendendo uma democracia censitária?

O filósofo argentino Mario Bunge, que era amigo pessoal de Hayek, escreveu: “Hayek está morto, mas deixou uma escola politicamente influente. Ele também deixou livros e artigos, porém ultrapassados. Dá gosto lê-los por sua erudição, abertura e clareza. Toda vez que eu me deparo com um deles, lembro-me do homem de sorriso afetuoso e de gravata borboleta, tão admirável por sua erudição e senso de humor como perigoso por sua insensibilidade social e cega paixão ideológica.”. 


Assim como Keynes, Hayek via a economia como algo imprevisível. Diferentemente, Keynes via o problema como de demanda efetiva durante a crise, e Hayek via o problema como de política monetária no período antes da crise. Em particular, Hayek argumentava que era a interferência do governo na oferta de dinheiro – por exemplo, através do abaixamento das taxas de juro, da emissão de muito mais moeda e do encorajamento da expansão do crédito – que criava bolhas e distorcia o mercado, levando a crises quando as bolhas explodiam e o boom se via fortemente baseado em capital fictício.

 Mas, o que seria o “crédito”?

Marx explica o papel do crédito sob o capitalismo em “O Capital” cumpre uma dupla função. Por um lado, crédito de relativo curto prazo se requer para superar gargalos na produção e para manter o fluxo e a circulação de capital. Por exemplo, as empresas necessitam tomar dinheiro emprestado para pagar salários e matérias-primas enquanto esperam que as mercadorias produzidas anteriormente cheguem ao mercado e sejam vendidas. Alternativamente, o crédito pode ser usado para permitir às empresas expandir sua produção quando não têm capital suficiente para fazer isto.

No artigo citado no início do texto explicita que “o crédito também desempenha o papel de expandir artificialmente o mercado – isto é, a demanda efetiva – e, dessa forma, ajudando a adiar a crise. Como anteriormente explicado, sob o capitalismo, a classe trabalhadora nunca pode comprar de volta o valor total das mercadorias que ela cria devido à natureza fundamental do capitalismo de produção para o lucro. Como também foi explicado antes, o capitalismo tradicionalmente supera esta contradição da superprodução reinvestindo a mais-valia criada em novos meios de produção em busca de maiores lucros. Isto, contudo, somente serve para criar ainda maiores forças produtivas, e, dessa forma, uma ainda maior massa de mercadorias que deve encontrar um mercado, e, dessa forma – em vez de resolver a contradição – somente exacerba a superprodução.”.

E prossegue: “O crédito formado pela concentração de poupanças e depósitos das pessoas e empresas nos bancos, é usado para aumentar artificialmente a capacidade de consumo das massas, e, dessa forma, para superar temporariamente a superprodução, permitindo que as forças produtivas continuem a se expandir. Como já explicamos em outra ocasião, a expansão do crédito nos últimos 20 anos – e particularmente desde a virada do século – criou a maior bolha de crédito na história e foi o fator primário em adiar a chegada da crise [de 2008].”.

Os ataques à classe trabalhadora que se seguiram à crise dos anos 1970 e continuou nos anos 1980 com as políticas de Reagan, Thatcher e de outros políticos ‘representantes’ do capitalismo. Esta sempre crescente exploração da classe trabalhadora continuou nos anos 1990 e no século XXI através da intensificação da jornada semanal e aumento das horas-extras, ataques aos salários e condições de trabalho e com muitos trabalhadores sendo forçados a ter dois empregos apenas para conseguir sobreviver. Ao longo desta crescente exploração, o crédito foi massivamente expandido através do uso de hipotecas, cartões de crédito, empréstimos estudantis etc.

Só que “a verdadeira barreira da produção capitalista”, como disse Marx, “é o próprio capital”. A fonte da crise não é externa ao capitalismo, mas vem de seu próprio núcleo: produção não para a necessidade humana, mas para o lucro. Em suma, esse lucro é a mais-valia produzida pela classe operária: enquanto os trabalhadores recebem salários, esses salários são necessariamente inferiores ao valor de seu trabalho. O valor restante deste trabalho, uma vez que é realizado vendendo commodities no mercado, é reinvestido na produção ou embolsado pelo capitalista.

As ideias de Hayek são meias-verdades ao dizer que a expansão do crédito causa crises. Contudo, a expansão do crédito não causa a crise; antes, ela adia a crise através da expansão artificial do mercado no curto prazo, mas à custa de exacerbar o problema da superprodução, levando a uma crise até mesmo maior no futuro. De forma similar, taxas baixas de juro foram usadas para dar fôlego ao boom além de seus limites, ao incentivar os investimentos e os gastos dos consumidores – consumo este que era dependente do crédito.

A expansão do crédito, contudo, é um processo dialético: a expansão do crédito permite o crescimento das forças produtivas; o crescimento das forças produtivas alimenta a expansão do crédito. Como explica Marx: “O crédito aí é, portanto, indispensável; crédito que tem o montante aumentado, com o aumento crescente da magnitude do valor da produção, e a duração distendida com o afastamento cada vez maior dos mercados. Há aí efeitos recíprocos. O desenvolvimento do processo de produção amplia o crédito, e o crédito leva à expansão das operações industriais e mercantis” (O Capital, Livro III, capítulo 30; Marx).

Em última análise, a fraqueza de Hayek e hayekianos para argumentar seus pontos foi devido à sua visão idealista do mundo, em comparação com a metodologia materialista histórica de Marx e os críticos da economia política. Para os primeiros, a crise econômica não está enraizada em causas sistêmicas, mas nas ideias e alegada estupidez dos políticos. Da mesma forma, a sua solução para a crise não é senão uma utopia que surge da imaginação. O nosso é o oposto: o socialismo científico reside nas contradições concretas da sociedade de classes, na luta de classes e nas lições da história.

Hayek errou rude em crer na “solução” (assim como os hayekenses) seria remover qualquer interferência no mercado e permitir que a oferta de dinheiro se regule a si mesmo – simplesmente levaria a um sistema crescentemente volátil e turbulento; a uma economia fora de controle – isto é, a uma situação semelhante à atual.

Vemos, mais uma vez que a falha dos Hayekenses, como com os Keynesianos, com seus focos unilaterais de um problema multilateral. Ao tentar resolver uma contradição, os capitalistas meramente criam novas contradições em outro lugar em maior escala.

Na realidade, a despeito de sua desenfreada fé no livre-mercado, Hayek nunca foi realmente aceito pelos representantes políticos do capitalismo, não podendo engolir seu credo econômico que significaria nenhuma interferência governamental na economia sob nenhuma hipótese. Diante da crise, os políticos burgueses sempre apertam, lançando fora toda conversa de “livre-mercado”, e, em vez disso, fazendo tudo o que for necessário para salvar o capitalismo de suas próprias contradições dentro do “Estado-Malvadão”.

Ah, o importante lembrar: Hayek dividiu seu Nobel de Economia em 1974 com – acreditem – um marxista (no mínimo um esquerdista), o economista sueco Gunnar Myrdal.


Conclusão: 


A dicotomia “austeridade vs crescimento” é, no final das contas, falsa. Como sublinhou The Economist (em cinco de maio de 2012), “Apelar por crescimento é como defender a paz mundial: todos concordam que é uma boa coisa, mas ninguém concorda em como fazer isso”.

Poderia comentar sobre mais economistas, mais teorias e afins, mas como o artigo já está suficientemente grande limitar-me-ei aqui. Quem sabe, algum dia, faço outro artigo com demais economistas e as suas respectivas escolas – e um pouco sobre suas ideias (óbvio que com um simples artigo não se refuta tudo, só que nos dá outra visão).

Está claro que ambas as visões estão certas e erradas ao mesmo tempo. Nem os keynesianos nem os neoclássicos têm respostas suficientemente seguras. Ao contrário do “otimismo” da burguesia nos anos de “explosão econômica”, agora até na classe dominante o medo e o receio toma conta – o pessimismo e a incerteza. Austeridade não está funcionando – como no Brasil, mas também não há dinheiro jorrando por aí para estimular a economia – pois o mercado exige cortes. 

E já a visão marginalista foi financiada pesadamente por grande parte da burguesia europeia, que ofereciam exorbitantes prêmios para quem ‘inventasse’ outra forma de medir o valor (que é diferente de preço!), porque utilizando a escola clássica era impossível uma resposta a Marx (tanto que a primeira resposta decente utilizando a TVT foi feita também pelo economista italiano Piero Sraffa, já nos anos 60). Essa e outras questões podem ser checadas no “Marx, Marginalism and Modern Sociology” de Simon Clarke.

A verdade é uma só: “o capitalismo gera seu próprio coveiro” – Marx.

Por fim, como bem escreveu o colega Marivalton Rissato: “Os economistas, em sua vasta maioria, não desejam modificar o mundo capitalista, pois é este mundo que lhes sustenta e lhes dá status de sábios”. E são esses que atuam como goleiros para segurarem as bolas da burguesia.


Link do artigo citado no início do texto:



Notas:





Referências:






Referência bibliográfica:

História do Pensamento Econômico, de  E.K. Hunt e Mark Lautzenheiser.


Adendo: O conceito de “ideologia” usado no texto se trata da questão de ideologia gera debate na tradição marxista até hoje. Alguns defendem esse uso, outros como Lukacs, usam num sentido muito mais amplo e humanamente naturais, como os complexos prático-ideais que regulam a vida cotidiana e os conflitos na sociedade. 

Marx, na Ideologia Alemã diz: “As idéias da classe dominante são, em todas as épocas, as idéias dominantes; ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante. (...) As idéias dominantes não são mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes, as relações materiais dominantes concebidas como idéias; portanto, das relações que precisamente tornam dominante uma classe, ou seja, as idéias do seu domínio. Os indivíduos que constituem a classe dominante também têm, entre outras coisas, consciência e, portanto, pensam; na medida em que dominam como classe e determinam todo o conteúdo de uma época histórica, é evidente que o fazem em toda a sua extensão, e consequentemente, entre outras coisas, dominam também como pensadores, como produtores de idéias, e regulam a produção e a distribuição de idéias do seu tempo; donde as suas idéias são as idéias dominantes da época.”.

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