Artigo

Bill Gates e os 4 bilhões na pobreza

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Publicado originalmente no The Next Recession

Artigo de Michael Roberts – economista britânico.

Tradução de Ramon Carlos

Revisado por Ramon Carlos e Wesley Sousa


Estaria a pobreza global diminuindo ou aumentando? Estimativas realistas calculam que existam, no mundo, mais de 4 bilhões de pessoas na pobreza, ou seja, dois terços da população. E ainda assim, em sua última carta pública para nós, Bill e Melinda Gates, a família mais rica do mundo, emitida mês passado [Março de 2017], estavam interessados em nos dizer que a batalha contra a pobreza global estava sendo ganha, e que aqueles vivendo com renda abaixo de US$1,25 por dia tinham sido cortados pela metade desde 1990. Como conciliamos estas duas estimativas?

Em 2013, o Banco Mundial soltou um relatório onde apontava que 1.2 Bilhão de pessoas vivem abaixo de US$ 1,25 por dia, dos quais um terço seriam crianças. Isso se compara com a linha de pobreza Americana de US$ 60 por dia em uma família de quatro pessoas. Mas, de acordo com o Banco Mundial, as coisas estão melhorando, com 720 Milhões a menos nesse limiar para a pobreza quando comparada a 1981. E o vencedor do prêmio Nobel Angus Deaton tem enfastiado que a expectativa de vida aumentou em 50% desde 1900 e continua a aumentar. A proporção de pessoas vivendo com menos de US$ 1 por dia (com inflação ajustada) diminuiu 14% de 42% como recentemente em 1981. Um residente típico da Índia é tão rico quanto um típico Britânico em 1860, por exemplo, mas possui uma expectativa de vida semelhante a de uma Europeu da metade do século 20. A propagação do conhecimento, sobre saúde pública, medicina e dieta, explica a diferença.

Entretanto, quando nos aprofundamos ainda mais nos dados, encontramos uma história um pouco menos otimista. Martin Kirk e Jason Hickel foram rápidos em desafiar os Gates em seus argumentos na tal carta. Os Gates “usam números para a linha da pobreza baseadas em US$1,25 por dia, mas existe um forte consenso acadêmico de que essa linha de pobreza é baixa demais. Utilizando uma linha de pobreza de US$5 por dia, a qual, até mesmo a agência da ONU sobre o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) sugere que seja o limite mínimo necessário para que pessoas possam obter comida adequada e alcançar a expectativa de vida padrão, a pobreza global medida neste nível não tem diminuído. Na verdade, tem aumentado – drasticamente – nos últimos 25 anos para 4 Bilhões de pessoas, ou aproximadamente dois terços da população mundial.”.

O Banco Mundial agora aumentou oficialmente a linha de pobreza para US$1,90 por dia. Mas isso simplesmente ajusta a quantia de US$1,25 para as mudanças no poder de compra do Dólar Americano. Mas quer dizer que a pobreza global reduziu em 100 Milhões do dia para a noite.


Assim como apontou Jason Hickel, esse US$1,90 é absurdamente baixo. Um limite mínimo seria de US$5 por dia de acordo com o cálculo feito pelo Departamento Americano de Agricultura e seria o mínimo necessário para comprar comida o suficiente. E isso é sem levar em consideração outros requisitos para a sobrevivência, tais como abrigo e vestimentas. Hickel mostra que na Índia, crianças vivendo com US$1,90 por dia ainda tem chances de 60% de serem desnutridas. Na Nigéria, recém-nascidos vivendo com US$1,90 por dia tem uma taxa de mortalidade três vezes maior que a média global.


Em um artigo de 2006, Peter Edward da Universidade de Newcastle usa uma “linha ética da pobreza” e calcula que, a fim de atingirem uma expectativa de vida humana de pouco mais de 70 anos, pessoas necessitam cerca de 2,7 à 3.9 vezes a linha de pobreza existente. Anteriormente, era de US$5. Usando os cálculos mais recentes do Banco Mundial, seria de US$7,40 por dia. Isso gera um número de 4.2 Bilhões de pessoas vivendo na pobreza hoje em dia. Ou 1 Bilhão a mais que nos últimos 35 anos.

Agora outros especialistas sugerem que a razão de existirem mais pessoas na pobreza seria pelo fato de que existem mais pessoas! A população mundial tem aumentado nos últimos 25 anos. Você precisa observar a porcentagem de pessoas na pobreza e na fatia de US$1,90, a proporção abaixo da linha caiu de 35% para 11% entre 1900 e 2013. Logo, os Gates estão certos, sugerem. Mas isto é malicioso, para dizer o mínimo. O número de pessoas na pobreza, mesmo no limite absurdo de US$1,25 por dia, aumentou, mesmo se não tanto quanto o total da população nos últimos 25 anos. E mesmo assim, toda essa evidência otimista dos especialistas é baseada na dramática melhora dos rendimentos médios na China (e, em menor escala, Índia).

Nesse relatório, Peter Edward encontrou que haviam 1.139 Bilhão de pessoas recebendo menos de US$1 por dia em 1993, e caiu para 1.093 Bilhão em 2001, uma diminuição de 85 Milhões. Mas a redução na China neste período foi de 103 Milhões (sem mudanças na Índia), logo, todas as mudanças relacionadas a pobreza se devem à China. Exclua a China, toda a pobreza permaneceu a mesma em outras regiões, enquanto aumentando significativamente na África Subsaariana. E, de acordo com o Banco Mundial, em 2010, uma pessoa pobre “padrão” em um país de baixa renda vivia com US$0,78 por dia em 2010, comparados a US$0,74 em 1981, dificilmente qualquer mudança. Mas esta mudança foi apenas na China. Na Índia, a receita média dos pobres subiu para US$0,96 em 2010, comparados aos US$0,84 em 1981, enquanto a renda média dos pobres na China subiu de US$0,95 em 2010, comparados à antigos US$0,67. O controle do estado na China sobre a ainda majoritariamente planificada economia, viu os mais pobres de seus cidadãos terem o maior progresso.

Os níveis de pobreza não devem ser confundidos com a desigualdade de renda ou riqueza. Sobre este último, a evidência do aumento da desigualdade de riquezas global é bem registrado e segue a mesma lógica. Se não contarmos os números da China, a desigualdade global, tem crescido nos últimos 30 anos. O ‘elefante da desigualdade global’, apresentado por Branco Milanovic, encontrou cerca de 60 Milhões, que constituem o 1% mais alto do rendimento do mundo, viram suas receitas aumentarem 60% desde 1988. Dentre os quais, metade são os 12% dos Americanos mais ricos. O restante deste 1% mais rico estão entre 3-6% Britânicos, Japoneses e alemães mais ricos, e o 1% mais rico de vários outros países, como Rússia, Brasil e África do Sul. Estas pessoas incluem a classe capitalista do mundo – os donos e controladores do sistema capitalista e os estrategistas e criadores das políticas imperialistas.

Mas Milanovic também encontrou que aqueles que ganharam ainda mais receita nos últimos 20 anos foram os da ‘classe-média global’. Estas pessoas não são capitalistas. São, em sua maioria, pessoas da Índia e China, a princípio camponeses e trabalhadores rurais que migraram para as cidades para trabalharem em fábricas da globalização: Suas rendas deram um salto, mesmo que suas condições e direitos não. Os maiores perdedores foram os mais pobres (na maioria agricultores rurais africanos), que não tiveram nenhum ganho em 20 anos.

A evidência empírica apoia a visão de Marx que, sob o capitalismo, uma ‘emiseração da classe trabalhadora’ (empobrecimento) tomaria conta, e refuta a carta dos Gates que a situação estaria melhorando. Qualquer melhora nos níveis de pobreza, ainda que medidos, é menor que o aumento da renda na China controlada pelo Estado e qualquer melhora na qualidade e duração de vida vem da aplicação da ciência e do conhecimento através do investimento do estado na educação, saneamento, água potável, prevenção de doenças e proteção, hospitais e melhor desenvolvimento infantil. Estas são coisas que não provem do capitalismo, mas sim do bem público.


Nota: 


* A foto é do economista Michael Roberts

2 comentários:

  1. Faltaram links para as fontes de referência. Onde posso ler, por exemplo, as pesquisas de Kirk e Hickel? Tem também um erro de gramática: "...que não tiveram nenhum ganho nada em 20 anos." (esse "nada" aí pode ser excluído). Acho que têm mais erros de português. No mais, achei muito interessante ver essa refutação. Tenho ouvido esse argumento da diminuição da pobreza há muito tempo, mas nunca tive tempo nem sou especialista suficiente para checar essas estatísticas. É difícil confiar em estatísticas sociais otimistas vindos de defensores do capitalismo.

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  2. Olá, camarada! Então, eis o link da postagem originaltem o seguinte estudo de Kirk e Hikcel: http://www.humanosphere.org/opinion/2017/03/gates-foundations-rose-colored-world-view-not-supported-by-evidence/

    Já o link original do artigo em inglês é este aqui: https://thenextrecession.wordpress.com/2017/04/05/bill-gates-and-4bn-in-poverty/

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