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A suposta recuperação econômica: Temer e o golpe nos números





BREVES COMENTÁRIOS SOBRE A SUPOSTA RECUPERAÇÃO ECONÔMICA: TEMER E O GOLPE NOS NÚMEROS


Por David Deccache  mestre em Economia pela Universidade Federal Fluminense (UFF)


Temer, em artigo escrito para a Folha de São Paulo, comemora supostos sinais, segundo ele, “inequívocos de que a prosperidade se acelera”. Além disso, afirma que tais sinais se revelam, sobretudo, nos indicadores ligados à indústria: “o crescimento torna-se visível em todas as áreas, sobretudo na indústria”. Por fim, o “presidente” avança na análise e se mostra confiante na retomada de bons indicadores de emprego e renda. Economistas e veículos da grande mídia fazem coro com o "presidente": o portal de notícias da Globo (G1) chegou a publicar entrevista no qual o especialista - pesquisador da FGV - afirma que o crescimento do PIB de 1%, como divulgado pelo IBGE, não era verdadeiro e que o número real seria de 4%, já que, segundo o "especialista", um crescimento de 1% após uma recessão de 3% significa crescimento real de 4%. Golpe na matemática.

Uma rápida análise dos dados econômicos é suficiente para provar que, além de golpear a democracia, o atual “presidente” também costuma golpear os números. O golpe está no DNA de Michel Temer. Vamos analisar cada um dos pontos levantados por ele: (i) crescimento acelerado (ii) recuperação da indústria e (iii) boas perspectivas para o emprego e renda.


1. Sobre os supostos sinais inequívocos de prosperidade


Sobre o primeiro ponto, “os sinais inequívocos de que a prosperidade se acelera”, um olhar minimamente atento sobre a evolução do PIB trimestre a trimestre, é suficiente. No primeiro trimestre de 2017, o PIB cresceu 1,3% em relação ao último trimestre de 2016. O crescimento naquele trimestre foi puxado, basicamente, pela agropecuária, que registrou a maior expansão em mais de 20 anos e foi destaque entre os setores calculados pelo IBGE, com salto de 13,4% em relação ao trimestre imediatamente anterior. Um resultado que nada teve a ver com boas políticas econômicas, tendo relações diretas com fatores extraordinários como, por exemplo, o aumento próximo de 50% no preço do milho. Por fim, no trimestre em questão, houve queda no consumo das famílias de 0,1% em relação ao último trimestre de 2016.

O segundo trimestre revelou uma significativa desaceleração na taxa de crescimento em relação ao período anterior: uma pequena taxa de crescimento de 0,6%, menos da metade da registrada no período anterior. O pequeno resíduo de crescimento ocorreu, novamente, graças a fatores meramente conjunturais, dessa vez, muito por conta da injeção de mais de 40 bilhões de reais na economia pela liberação dos recursos de contas inativas do FGTS.

No terceiro trimestre, sem a ajuda da agropecuária, que recuou 3% em relação ao período anterior, a taxa de crescimento despencou, caindo de 0,6% no segundo trimestre para um terço disso no terceiro trimestre: crescimento pífio de 0,2%. Por fim, o quarto trimestre sacramenta a tendência de perda de dinamismo na economia: o pequeno resquício de crescimento foi de apenas 0,1% em relação ao trimestre anterior.

Sinteticamente, do primeiro ao quarto trimestre de 2017, houve recuo sistemático nas taxas de crescimento: 1,3 no primeiro; 0,6 no segundo; 0,2 no terceiro até chegar nos míseros 0,1% do quarto trimestre.

Em perspectiva comparada, o pequeno crescimento de 1% em 2017 era algo esperado, já que estávamos no fundo do poço e acabando de sair da maior recessão da história brasileira em um biênio. Mesmo assim, o resquício de crescimento se deve, especialmente, ao setor agropecuário que, segundo o IBGE, contribuiu com 70% do PIB no ano. O crescimento registrado do agronegócio foi 13% em 2017. Fora isso, apesar do minúsculo crescimento, a coordenadora de contas nacionais do IBGE, Rebeca Palis, alegou que a economia retrocedeu ao mesmo patamar do primeiro semestre de 2011. A austeridade iniciada em 2015 e aprofundada de maneira brutal pelo governo Temer destruiu o crescimento brasileiro de seis anos.

A não ser que a régua do Temer esteja virada de ponta à cabeça, a trajetória aponta para o exato oposto do que ele defende no seu lamentável artigo na folha: uma sintomática desaceleração no crescimento.


2. Sobre a recuperação da Indústria


Ao contrário do alegado por Temer, a indústria registrou variação nula. Continua estagnada. Temer, mais uma vez, mentiu. A construção civil, por exemplo, caiu 5%. O que salvou a indústria de uma recessão foi o setor extrativista, que cresceu 4,3%.

Já a taxa de investimento – despesa mais dinâmica da economia - foi a menor taxa na série histórica das Contas Nacionais iniciada em 2000 para esse indicador. O que mostra claramente que uma retomada sólida não passa de retórica oportunista da equipe econômica do governo que insiste em golpear os números.


3. Sobre as “boas perspectivas” de emprego e renda


O país fechou o quarto trimestre de 2017 com 23,6% de trabalhadores subutilizados (26,4 milhões de pessoas que potencialmente poderiam trabalhar, mas estão desocupadas). Já a taxa média de desemprego anual no Brasil foi a maior da série histórica do IBGE: 12,7% de desempregados (Pnad Contínua). Concretamente, de 2014 a 2017, a média anual de desocupados passou de 6,7 milhões para 13,2 milhões.

Por fim, a informalidade – algo que tende a ser brutalmente intensificado com a reforma trabalhista – subiu significativamente: segundo o IBGE, ano passado, o número de trabalhadores sem carteira assinada cresceu 5,5% em relação a 2016. São 560 mil trabalhadores a mais na informalidade. Isso sem contar a queda na renda dos trabalhadores: um terço dos paulistanos, por exemplo, teve queda na renda nos últimos 12 meses, é o que aponta a pesquisa Viver em São Paulo – Trabalho e Renda, realizada pela Rede Nossa São Paulo e o Ibope Inteligência.

Mais mentiras. Mais golpes. Desta vez, golpe nos números.


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