Artigo

Keynes: preços e quantidades



Publicado originalmente no blog Naked Keynesianism

Por Matias Vernengo – 13 de Abril de 2012

Tradução de Ramon Carlos


As economias convencionais sugerem que preços e quantidades deveriam ser abordados simultaneamente, como deveriam se os preços do mercado, determinados pela oferta e demanda estão no centro do quadro analítico. Com oferta e demanda, deve ser o caso que a quantidade produzida, e o equilíbrio de preço, ambos forem determinados simultaneamente. Além disso, é possível que, com a flexibilidade dos preços, a quantidade produzida seja otimizada do ponto de vista da utilização dos recursos e das preferências dos agentes. E se isso é verdade para as bananas, ou qualquer outra mercadoria para esse assunto, deve ser verdade também para o trabalho e “capital”.

Como discuti antes, em particular no que diz respeito ao capital, esta abordagem (oferta e procura ou marginalista), que contrasta com a abordagem excedentária, tem sérios problemas. Mesmo se desprezamos, por simplicidade, a parte subjetiva (sobre as preferências) e nos concentramos apenas nas condições de oferta, as dificuldades são insuperáveis. Os produtores só fornecem mais a preços mais elevados, o que significa que devem enfrentar custos crescentes (retornos decrescentes). Não pode ser que eles só estejam dispostos a fornecer mais a preços mais elevados (remuneração mais elevada) mesmo que os custos não sejam mais elevados, uma vez que se um produtor obteve uma remuneração mais elevada, a entrada gratuita de novos produtores (atraídos pela remuneração mais elevada) implicaria que mais seria produzido. Assim, a curva de oferta depende de diminuição de retornos.

E retornos decrescentes são uma proposição altamente improvável, como Piero Sraffa argumentou na década de 1920. Não muitos produtores, se houverem, diriam que eles não produzem mais, porque seus custos iriam subir (e isso reduziria a demanda à medida que os preços subirem). A maioria simplesmente responderia que, embora pudessem produzir mais ao mesmo preço, não têm demanda suficiente. Mas o fetiche de retornos decrescentes domina a profissão (não direi nada aqui sobre competição imperfeita, mas Franklin Serrano observou aqui que isso estaria relacionado com barreiras à entrada).

Na abordagem do excedente, que afeta a si mesmo com a forma como as sociedades reproduzem a si mesmos (geralmente numa escala amplificada e com acumulação), os preços e as quantidades são tratados separadamente. Uma vez que os custos de produção para uma determinada tecnologia parecem ser independentes da quantidade produzida (ou seja, o custo seria o mesmo se você produzisse um pouco mais ou menos), então a quantidade pode ser tomada como dada para a discussão da determinação de Preços. É bem sabido que, nesse caso, os preços dependem da tecnologia, que deve permitir a reprodução (inclusive da força de trabalho) e pela maneira como o excedente (o que resta, acima e além das necessidades de reprodução) é dividido entre classes.

Essa separação entre preços e quantidades foi chamada por Garegnani de “método de quantidades determinadas”. Note-se que isso não implica que as quantidades são determinadas pela oferta ou dadas a um nível que é otimizada do ponto de vista da utilização dos recursos. E é por isso que é perfeitamente compatível com a noção de Keynes de uma demanda em determinado nível de atividade (sim, você pode, e deve, adicionar Sraffa ao seu Keynes, ou Kalecki). Além disso, isso não significa que não há nenhuma mudança técnica ou que a distribuição não afeta a saída (todas as proposições que foram discutidas aqui no blog http://nakedkeynesianism.blogspot.com.br).



Seja como for, estou mais interessado nas implicações macroeconômicas das principais opiniões sobre preços e quantidades. Desde o final da década de 1960, essas opiniões se aglutinaram em torno da noção de que, ao passo que há uma ‘troca’ de curto prazo entre preços e quantidades (a chamada Curva de Phillips, PC), a longo prazo a ‘troca’ desaparece. Simplificando, se você empurrar a demanda demais (através da política fiscal e monetária), a produção aumentaria, o desemprego cairia (de acordo com a Lei de Okun: maior produção implica menor desemprego) e a inflação se aceleraria. Em longo prazo, no entanto, a economia é autoajustada e a produção não pode estar acima do nível otimizado, de modo que o único efeito das políticas expansionistas seria a inflação (Friedman dixit).

A propósito, o mesmo (o ‘convencional’ ama simetria) é verdadeiro para a deflação. Sim, pode causar alguns problemas, mas o sistema retorna ao pleno emprego, mesmo diante de políticas contracionistas (os gregos não devem se preocupar com a contração, porque os mercados gerariam pleno emprego se lhes fosse permitido trabalhar; Daí, a necessidade de flexibilidade do mercado de trabalho). A longo prazo, as políticas contracionistas apenas afetariam os preços. Em suma, a oferta e a demanda levariam ao preço e à quantidade ideal, assim, se você caísse fora do meu mercado (o velho indivíduo neoclássico irritado diria), e parasse de expandir a demanda, não haveria nenhuma inflação.
A evidência para uma taxa natural ou para uma Curva de Phillips é incrivelmente fraca. A fim de argumentar que há uma taxa natural, a corrente principal (convencional) basicamente sugeriu que ele se move ao redor o tempo todo. Na década de 1980, a taxa natural era maior (nos EUA), quando o desemprego era maior do que nos anos 90 (especialmente no final da década), quando a taxa real também foi menor. A natureza ad hoc (destinado a essa finalidade) da solução é evidente. Eles dizem que o natural (que eles medem como uma média do real) é quem atrai a taxa real, e não o contrário.
O ‘ad hocismo’ contínuo da corrente convencional está em exibição agora também. Isso é evidente na discussão sobre os medos da inflação nos EUA, segundo os quais a triplicação da base monetária levaria à hiperinflação (Krugman critica isso aqui e em vários outros lugares). A inflação não ocorre, mas deve ser que as expectativas de inflação sejam baixas.
Além disso, é evidente no FMI, o Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) e outras instituições internacionais (pelo menos desde o ano passado) argumentos para a contração fiscal e monetária na periferia (que ainda está crescendo mais rápido do que o centro). O FMI acredita que a expansão fiscal não é mais necessária, uma vez que “a demanda privada tem, na maior parte, assumido o controle” (FMI, 2011: xv). Além disso, o BIS diz que a inflação é atualmente o principal risco numa economia mundial de certa forma recuperável e, por conseguinte, sugere que as taxas (de juros) de políticas deverão subir globalmente (BIS, 2011: xii). De acordo com essa visão, então, se a demanda for controlada, logo, os preços parariam de crescer rapidamente e a inflação estaria sob controle.
O Brasil realmente fez isso no ano passado [2011], ou seja, a contração fiscal (com alguma flexibilização monetária, mas de uma posição muito rígida, já que ainda mantém taxas de juros reais muito altas). A produção desacelerou de 7,6% em 2010 para um mero crescimento de 2,7% no ano passado [2011]. Uma redução de quase 5%. Será que a inflação, em seguida, caiu significativamente como deveria de acordo com o convencional? O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Getúlio Vargas passou de 6,24% para 6,36% no mesmo período, ou seja, foi quase constante. Algo semelhante ocorreu na Argentina entre 2008 e 2009, quando a produção desacelerou em torno de 10% (do crescimento alto para o crescimento negativo) e a inflação manteve-se em níveis elevados (caíram cerca de 6% em um ano em que os preços das commodities entraram em colapso). O principal argumento é que as políticas não eram credíveis e, como resultado, as expectativas de inflação permaneceram elevadas.
Em outras palavras, não é que a teoria não funcione, mesmo que os fatos mostrem que suas previsões são falsas. É um problema da complexidade do fenômeno, e a necessidade de dar conta das expectativas (qualquer coisa pode entrar aqui, e nenhuma hipótese pode ser testada se você levar isso a sério).
Uma solução mais simples seria admitir que os preços têm pouco a ver com a demanda (na maioria das vezes a procura mais fraca e menos empregos reduzem o poder de barganha dos trabalhadores e reduzem a resistência salarial). Em outras palavras, livrar-se da noção de taxa natural de desemprego e de uma Curva de Phillips para as quais não há evidência confiável (como deveria ser feito por qualquer cientista sério). As contrações exigidas pelo FMI e pelo BIS levaram à recessão (elas afetam as quantidades), e os preços no Brasil não caíram porque os custos (que incluem bens importados e salários) não caíram. Não há necessidade de sugerir que as expectativas são responsáveis pela inflação não ter caído. [Keen em seu debate com Krugman também se referiu a esses subterfúgios para manter a teoria em face da falta de provas; ou Epiciclos se preferir]. A propósito, as expectativas têm sido tradicionalmente uma maneira de argumentar que tudo pode acontecer, e permitir que as teorias que não são consistentes com os fatos se safarem com a incoerência. Mas vou deixar isso para outro post.

Referências:


BIS (2011). 81st Annual Report. Basel, Bank for International Settlements, June.

IMF (2011). World Economic Outlook. Washington, DC, April.

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