crítica

“A esquerda é o melhor cabo eleitoral da direita”? – reposta ao Ano-Zero


Semanas atrás li um texto de um site chamado Ano-Zero, com o seguinte título: “A ESQUERDA É O MELHOR CABO ELEITORAL DA DIREITA”.

Li e reli. De início, achei tais críticas válidas, apesar do impressionismo para dar bons views (afinal, cada um vende seu peixe da melhor maneira, não é mesmo?). Refleti comigo mesmo sobre os argumentos e recorri alguns amigos que entendem mais do assunto. Analisei o texto novamente e percebi que ele contém doses ácidas de espantalhos (ou a falácia do homem de palha).

Portanto, farei alguns rabiscos em resposta ao texto citado.

Na foto Luís Carlos Prestes. Militar e político comunista brasileiro, uma das personalidades políticas mais influentes no país durante o século XX.


Sempre aparece alguém com a sapiência e autoconfiança da consciência política para “jogar a real” aos esquerdistas sobre os possíveis “fracassos” da militância desse espectro. Concernente a isso, atribuem-se as derrotas eleitorais nas últimas eleições municipais e nacionais; Trump; e o neofascismo europeu. Como apontou a autora do texto lá.

Parte destes críticos acusam os esquerdistas de “não saberem dialogar” com o povo, assim, o povo cai nos discursos fáceis da direita (mesmo que a direita seja hipócrita e “suja”). Nesse sentido, a esquerda estaria “cega” em não ver isso acontecer e a “onda conservadora” encurralar os progressistas.

Na verdade, tal descompasso não é – ou não deveria ser – novidade, principalmente para a esquerda. Só que a direita parece-me ter um problema gravíssimo – ou finge não o entender – a ideologia. Às vezes, tal crítica é calcada na “esquerda é o melhor cabo eleitoral da direita”. Só que aí reside o equívoco da direita: a política não é como a matemática que os resultados independem do sujeito.

As ideias de uma sociedade são as ideias da classe dominante. A ideologia é, em medida, as ideias de dominação sobre a classe dominada. Explico: as ideias dominantes são nada mais do que expressão ideal das relações materiais dominantes compreendidas sob a forma de ideias; são dessa forma, as ideias de sua dominação. É por isso o papel ideológico que a direita nega (ou sequer conhece), dentro da esquerda se faz presente para compreensão do mundo real e suas relações sociais (politicamente, religiosas, jurídicas etc.) pelas quais os seres humanos lançam a prática.

Esquerdistas sabem que a classe trabalhadora, em maioria, é contrária às PEC dos gastos, Previdência; e Reformas Trabalhistas, por exemplo. São favoráveis à Reforma Agrária e Urbana; taxação das grandes riquezas e heranças, das empresas e redução das taxas de juros.


Realidade: a população é progressista no que tange a economia, e conservadora em relação a valores morais, devido à forte influência cultural e religiosa!


Porém, talvez estes aventureiros críticos da esquerda não compreendem que o papel da ideologia vai em ideias de relações de poder, não puramente sistemáticas. Pois, para a direita, os esquerdistas são “arrogantes” em não lidarem essa contradição de ideias. Entretanto, se a esquerda desconhecesse tal contradição, seria ainda mais surpreendente.

Os indivíduos que formam a classe dominante possuem, entre outras coisas, também uma consciência e, por conseguinte, pensam que uma vez que domina como classe e determinam todo o âmbito de um tempo histórico, é evidente que o façam em toda sua amplitude como consequência. E também dominem como pensadores e como produtores das ideias sejam, em consequência, as ideias dominantes de um tempo.

Dito isso, a esquerda pode se enganar, como sabe que pode (e trata de corrigir em si mesma), em procurar estabelecer em defesa daquilo que se pretende. A práxis é ação modificadora da realidade ao qual temos e delineamos nossa busca. E mais além: esquerdistas não costumam cair na contradição de “normalizar” toda e qualquer situação social e de produção tal como a direita faz para o status quo. Se para ela a esquerda “se perdeu”, sabe-se que a esquerda está sempre utilizar aquilo que tem de melhor: seu aparato analítico da sociedade.

Vale ressaltar que, assim como a Direita política, a Esquerda é multifacetada. A Esquerda marxista, por exemplo, tem ao longo dos anos sempre feita autocrítica profunda sobre as condutas e diretrizes em meio ao movimento de massas. Os marxistas são – e fazem-se – autocríticos. Principalmente em relação aos erros da URSS, etc.; das perseguições que os próprios marxistas e anarquistas sofreram, e assim por diante.

Os conservadores da direita nem tanto (ou nem fazem por obviedade já apontada no texto). Porque uma das características principais do conservadorismo, além do apego às tradições, é o apego ao dogmatismo e ao imediatismo político. À aceitação dos métodos independentemente de funcionarem ou não e a consequente ausência de questionamento. Não questionam nem o capitalismo (e seus danos inerentes), nem o status quo religioso (aliás, intocável e imprescindível para eles em sua ideologia).

Se, eventualmente, a “esquerda é acadêmica” e “quem faz o trabalho de base é o outro lado”, interpelo sobre qual instrumental de análise e de militância o lado destro tem. Evidente que os direitistas são pragmáticos, e aí reside a fragilidade conservadora: porque esquerdistas sabem da improbabilidade das classes baixas compartilharem de seus próprios pensamentos tendo em mente a ideologia dominante nelas.



Mas, por fim, algo admirável saber que a ilusão e o autoengano não são exclusividade para esquerdistas!

Lula nos braços do povo

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