Arte

Breve Nota Sobre a Série The Expanse



Fernando Pereira é estudante de Filosofia pela PUC-MG.



O personagem Robinson Crusoé de Daniel Defoe naufraga numa ilha, isolado do mundo começa a reconstruir sua vida com base daquilo que aprendera na civilização, o mesmo mote vemos em Náufrago (2000) e Até o Fim (2013), ou até mesmo Na Natureza Selvagem (2007), aqui uma exceção ocorre, um sujeito que sai da sociedade, apartado do mundo. Claro ele não está sozinho, assim como Crusoé, antes de encontrar Sexta-Feira, tinha uma carga cultural anterior, o que se repete com Chuck Noland (Náufrago/Tom Hanks) e os outros personagens e seus respectivos filmes. O indivíduo atomizado sem sombra de dúvidas nunca existiu, a não ser numa quimera liberal, com sua economia robinsonada*. The Expanse (2015) é uma série com esse mesmo legado, se passa 200 anos no futuro, num cenário maior: aqui o sujeito que parte para uma ilha apartada do mundo é o gênero humano, e a ilha? O sistema solar.

Como usual numa distopia, não se tem uma resolução dos problemas atuais no futuro, mas ao contrário; os problemas são elevados a uma escala maior. Poderíamos cair em conceito vago de “natureza humana” e com isso numa jaula de aço do capitalismo como estágio final da sociedade. Um prato cheio para liberais, não? Pois é. A aposta da série é essa, as questões do contemporâneo estão longe de serem resolvidas, nas palavras dos autores dos livros que deu origem a série; “Questões de raça não foram resolvidas na história humana até agora, e não esperamos que elas sejam no futuro. Elas vão mudar e refletir a história na qual elas existem. Histórias em que o preconceito foi abolido não soam plausíveis para nós”**. Em outras palavras, um reflexo da sociedade atual, nos faz não ter um outro horizonte possível. Alguns diriam ser um pessimismo outros um realismo, nem um nem outro, mas dentro dos dois; um fatalismo.

O fatalismo é no qual se colonizássemos o sistema solar deslocaríamos nossa cultura terráquea para marte e outros planetas, em outras palavras, o capitalismo expandiria. Amplificaríamos os nossos problemas. O único sinal de otimismo nisso é que do mesmo modo que na terra temos uma crítica ao capitalismo, na série isso também é abordado; grupos que revindicam a luta dos trabalhadores e fazem parte importante na obra, como Martin Scorsese disse numa entrevista sobre Terra em Transe do Glauber Rocha; “… sempre haverá resistência enquanto houver injustiça.”*** A reflexão mais justa é; enquanto não resolvermos os problemas do capitalismo na nossa querida Terra, a série não seria uma mera ficção, e sim infelizmente um suposto documentário.****




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